
luz

Vasculhando nos meus baús digitais - precisamente nas minhas pastas de trabalhos escritos para a professora Rejane Piveta do Mestrado em Letras da Uniritter - 2010), achei este texto e resolvi publicar essas ideias (escritas antes da invasão à Favela do Alemão), pois o problema não acabou, ainda é preciso denunciar e agir.
REFLEXÕES APÓS ASSISTIR AOS DOCUMENTÁRIOS "FALCÃO, MENINOS DO TRÁFICO" E "NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR"
No mundo midiático em que estamos mergulhados, as imagens belas e bem estruturadas apresentadas nas novelas e nos programas de televisão brasileiros enfeitam nossas casas e dão um colorido especial ao colapso urbano das grandes cidades. O pobre da novela acorda com um maravilhoso café da manhã, os móveis de suas casas têm cores artificiais, a pobreza chega a ser bela, possui marca de originalidade.
As propagandas, os telejornais, os programas de humor ou de auditório anunciam uma vida plastificada, de formas harmônicas, de luxo e beleza, como em um eterno carnaval que esconde alegremente a miséria social.
O telejornal anuncia uma catástrofe na voz delicada e agradável de uma jornalista bonita que, logo após a notícia ruim, anunciará alguma atividade alegre do folclore brasileiro. Infelizmente estamos acostumados a ver a violência e miséria do mundo com lentes cor de rosa.
Falcão, meninos do tráfico e Notícias de uma Guerra Particular, dois documentários que mostram o oposto disso, ou seja, a verdade. Tiram a lente colorida do cinema, desmascaram aquilo que ninguém deseja ver ou que pode não ser interessante ver para que tudo se mantenha da mesma forma.
Poderíamos dizer que um filme complementa o outro. São as duas faces de uma mesma moeda (ou duas moedas com uma só face). De um lado, os meninos do tráfico filmados no meio da favela, com sua linguagem carregada de gírias, linguagem específica para o ambiente e função. As famílias – ou o que resta delas – movimentam-se naquele espaço recortado, em uma ordem “desorganizada”. As ruas são ruelas, becos; as imagens mostram a miséria, as crianças são magras e brincam, como qualquer criança, de “polícia-e-ladrão”. No entanto, fazem-no com uma diferença: eles são os ladrões, sua representação do crime (aquele que presenciam no dia a dia) é perfeita. No jogo, no lúdico, fogem da triste realidade na própria reprodução dela para, provavelmente mais tarde, vivê-la. A brincadeira, o lúdico é adaptado ao tráfico em um polícia-e -ladrão às avessas para amenizar a sensação de descontrole que aquela vivência lhes dá.
O documentário começa com as imagens da periferia e com a música produzida por eles. Com esse recurso, o espectador já se insere na realidade, a maneira como são filmadas as cenas faz-nos entrar na favela com o olhar do morador. Suas vozes, suas músicas, o burburinho característico do cotidiano, o “falcão” pedindo fogo a uma “tia”, tudo nos transporta para aquele meio, somos mais um entrando na vila e assim percebemos o humano dessa realidade esquecida e que não é “Global”.
É interessante observar que, naquele labirinto em que vivem, organizam-se e levam a vida como um trabalhador comum que recebe salário pelo mérito de seu trabalho: “A carga movimenta a firma”, “É uma fábrica, cada um com uma função”. Eles se preocupam com suas responsabilidades na atividade de traficar. É tudo muito organizado e funcional. Mais interessante ainda é perceber que eles, tanto crianças quanto adultos, têm consciência de seu papel social: sabem que não é vida digna, sabem que seu fim é a morte precoce, sabem que não têm um futuro certo e, por tudo isso, não resistem a essa vida, é a única que conseguem ter, única saída para a precária sobrevivência.
Paradoxo violento e aterrador! Do outro lado, a polícia manifesta sua percepção não menos aguçada. Todos sabem seus papéis, reconhecem sua ineficácia, identificam as falhas e denunciam o Estado em cuja estrutura social se mantêm amarrados (aliados?).
Como manter os excluídos calmos? A pergunta feita pelo Chefe da Polícia Civil, Hélio Luz, poderia ser o título de um terceiro documentário reunindo os dois aqui citados. De um lado, os excluídos sobrevivendo, organizando sua desordem; de outro, a representação da organização (o Estado) mostrando sua falência, desestrutura e desordem.
Então, perguntamo-nos se adianta fazer tais denúncias. Se todos têm consciência de seu estado, por que e para que denunciá-lo? Por que não se faz nada ainda?
A pergunta ecoa em nossas mentes. E é o próprio documentário, na voz de MV Bill, que nos responde já de início: o problema precisa ser mostrado, senão as pessoas vão continuar ignorando quem vende, quem compra, quem mata.
“Se eu morrer, nasce outro que nem eu”. “Se morrer, vou descansar, é muito esculacho nessa vida”. “Nóis não é nada, nóis não tamo na sociedade”,
Quem não está na sociedade?
Quem é a sociedade?
Onde está o bandido?
O colorido dos dois documentários mostra uma triste realidade que precisa ser denunciada. E não é com novela, nem com rostos bonitos de artistas encenando dependência química na novela das oito. “Aqui é o inferno, aqui nóis vive a realidade, onde a bala come e a lei é do cão”: não são necessárias superproduções, a vida explode nos morros diariamente, no estampido dos foguetes avisando que a polícia está invadindo, ou no estouro da bala que tira a vida de quem já não a tem.
Denunciar é preciso, embora a verdade não rime!
Por engano, vingança ou cortesia
Tava lá morto e posto, um desgarrado
Onze tiros fizeram a avaria
E o morto já tava conformado
Onze tiros e não sei por que tantos
Esses tempos não tão pra ninharia
Não fosse a vez daquele um outro ia
Deus o livre morrer assassinado
Pro seu santo não era um qualquer um
Três dias num terreno abandonado
Ostentando onze fitas de Ogum
Quantas vezes se leu só nesta semana
Essa história contada assim por cima
A verdade não rima
A verdade não rima
A verdade não rima...
http://letras.terra.com.br/elis-regina Acesso em 03/11/2010.